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or suas teorias, sempre aliadas à prática, o pedagogo Paulo Freire se tornou uma das principais referências para pensar a alfabetização como uma questão política. Passados 10 anos de sua morte, o doutor em História Social, pela USP, Régis Lopes apresenta uma reflexão sobre o legado de Freire

No dia 2 de abril de 1963, em Angicos, interior do Rio Grande do Norte, a turma assistiu à aula derradeira, que inteirava a jornada das 40 horas. Havia o chafurdo de jornalistas e políticos e, para completar, o professor era o Presidente João Goulart, falando que ali se dava o início de uma ponte para que todos os brasileiros tivessem o direito de ler a Constituição.

Era, pode-se afirmar, mais uma propaganda de políticos, mas dizer isso e colocar ponto final é pouco, quase nada. Antes de qualquer coisa, tratava-se de um marco na história da escrita e da leitura. As propostas do professor Paulo Freire, que já se geravam desde o final dos anos 50, mostravam, de modo mais explícito, o fluxo erótico entre leitura da palavra e leitura do mundo, o ato político de ensinar e aprender, porque ensinando e aprendendo, a vida nossa de cada dia afirma que “o mundo não é, está sendo”.

No calor da hora, como lembra o depoimento de Carlos Lyra, uma das autoridades da comitiva presidencial se dirigiu ao Secretário da Educação Calazans Fernandes e deu um conselho em forma de pergunta: “Meu jovem, você não acha que está engordando cascavéis neste sertão?”. “General”, respondeu o Secretário, “depende do calcanhar que vai sentir a mordida...”.

O General era Castelo Branco, que, um ano depois, iria dar o seu bote, com o apoio de muita gente, de dentro e de fora das Forças Armadas. Estava em andamento o plano do Governo Federal para instalar 20 mil “Círculos de Cultura”, que iriam alfabetizar cerca de dois milhões de pessoas. Escorregou tudo por água abaixo. Paulo Freire foi preso e, com pouco tempo, foi convidado para sair do país.

Depois, muitos escreveriam sobre Paulo Freire, em sintonia com a força de palavras que se juntam e se separam, brigam e se amam em nome da liberdade. Thiago de Mello, além de escrever, soletrou. O poema “Canção para os fonemas da alegria” foi impresso em 1966, no livro “Faz escuro mas eu canto”: “Peço licença para soletrar, / No alfabeto do sol pernambucano / A palavra ti-jo-lo, por exemplo, / E poder ver que dentro dela vivem / Paredes, aconchegos e janelas (...)”.

Quando Paulo Freire foi expulso do país pelo golpe militar, eles se encontraram no Chile. Tempos depois, em 1997, Paulo Freire falaria sobre isso no livro “Aprendendo com a própria história”: “A capacidade de amar, de que ele fala tanto em sua poesia, não é apenas poema, em Thiago é existência”. É por isso que, depois se tornar escritor, ele não esqueceu de soletrar: “Peço licença para terminar / soletrando a canção de rebeldia / que existe nos fonemas da alegria: / canção de amor geral que eu vi crescer / nos olhos do homem que aprendeu a ler”.

Com a anistia, Paulo Freire voltou. Escreveu outros livros, continuou a ser professor e assumiu, por pouco tempo, o cargo de Secretário de Educação, em São Paulo. É claro que as suas proposições nunca deixaram de receber críticas, da direita, obviamente, e também da esquerda. Algumas acusações se referem aos procedimentos em torno da “palavra geradora” ou à questão da “silabação”. Outras questionam a originalidade do seu “método” ou o papel revolucionário do seu pensamento.

De qualquer modo, suas idéias circularam e é impossível refletir sobre os movimentos sociais na segunda metade do século XX sem se referir às práticas de leitura que ele inspirou.

Um dos princípios fundamentais da pedagogia de Paulo Freire, que continua a desafiar os rumos da prática educativa, e especificamente os caminhos da alfabetização, é trabalhar com a seguinte questão: antes de ler palavras, temos leituras do mundo, e quando lemos palavras acontecem novas leituras do mundo. Nesse sentido, ele adverte: “o ato de aprender a ler e escrever deve começar a partir de uma compreensão muito abrangente do ato de ler o mundo, coisa que os seres humanos fazem antes de ler a palavra”.

Ele sempre ressaltou que educar não era informar e sim transformar: “é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político”.

Há, em Paulo Freire, uma reflexão sobre a íntima relação entre leitura e poder, entre as maneiras de se colocar diante do texto e as formas pelas quais a opressão (ou a liberdade) ganha (ou perde) terreno. A leitura é um espaço de potência, pode cultivar a vontade de mudar ou de permanecer, entre muitas outras vontades. Trata-se de um caleidoscópio. É por isso que a oposição, diante das malvadezas do capitalismo, pressupõe a construção de novas posições no ato de ler.

RÉGIS LOPES
Historiador

Escrito por angela.cristina@pbh.gov.br às 09h40
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ler escrever...
portas abertas para o saber

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